sábado, 21 de março de 2009

Com desmatamento não há lucro futuro

Um relatório da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) divulgado esta semana trouxe dados preocupantes sobre o desmatamento no mundo. O relatório coloca o Brasil em péssima situação quanto à conservação de suas matas.

No estudo, que analisa a perda absoluta de florestas entre 2000 e 2005, o Brasil figura como responsável por 42% de hectares da mata cortada em todo o mundo nesse período. O total mundial chegou a 7,3 milhões de hectares. No Brasil, a perda foi de 3,1 milhões de hectares anuais.

No Brasil, segundo a FAO, houve uma aceleração no desmatamento em comparação com o período entre 1995 e 2000. Naqueles anos, os cortes totalizaram 2,6 milhões de hectares.

O mundo perdeu a cada dia 200 quilômetros quadrados de florestas. E as projeções futuras do órgão da ONU apontam para a continuidade desse processo de devastação. Em nosso país, a expansão da agricultura e da pecuária e também a produção de biocombustíveis são elementos de estímulo ao crescente desmatamento.

Este relatório da FAO compilou dados até 2005, mas de lá para cá todos os estudos mostram que o desmatamento tem aumentando bastante e em alguns casos até com a justificativa de que isso faz parte do desenvolvimento econômico. Tal equívoco é estimulado pelo próprio presidente Lula quando ele diz coisas como que “entre um cerradinho e a soja” ele fica com a soja.

Colocar a destruição ambiental como um ônus inerente ao progresso é um raciocínio que favorece apenas aos que buscam o lucro fácil sem consideração com os graves problemas criados para toda a humanidade. Para este tipo de desenvolvimento econômico sem dúvida é imprescindível a destruição do meio ambiente.

Porém, esta é uma dicotomia falsa. Não pode haver conflito entre a preservação do meio ambiente e o progresso, pois quando isso acontece o próprio desenvolvimento acaba sendo de curto prazo, com o risco inclusive de um retrocesso que pode custar mais caro que os lucros obtidos durante a experiência.

A situação do planeta no aspecto ambiental é tão delicada que até proposições tidas como positivas para o equilíbrio ecológico exigem um debate aprofundado, pois onde parece existir uma solução pode estar o agravamento do problema.

A questão do biocombustível está neste plano. Quando a produção do biocombustível avança sobre nossas florestas, então o argumento ecológico deixa de fazer sentido. Aí o projeto deixa de atender a expectativa principal e se restringe ao aspecto meramente econômico.

Há cerca de um ano o jornalista Washington Novaes, um pioneiro brasileiro em ecologia e um dos melhores textos na área, escrevia sobre a produção do biocombustível na Indonésia, outro país campeão mundial em desmatamento.

Na Indonésia o desmatamento ocorre em florestas encontradas em pântanos turfosos. Isso acaba provocando a liberação intensa de dióxido de carbono, já que na turfa de áreas como essas, no Sudeste Asiático, estão armazenados cerca de 155 bilhões de toneladas de CO2, o que dá seis vezes as atuais emissões anuais no mundo. Os dados ele extraiu da revista New Scientist.

Então Novaes faz a pergunta inevitável: “Vale a pena, por exemplo, desmatar uma área e drenar o terreno turfoso, se ele libera 30 vezes mais dióxido de carbono do que a redução que é conseguida com o biocombustível produzido naquela área?”

São questões como essa que devemos avaliar quando nos defrontamos com números como estes divulgados agora pela FAO. Para onde nos leva um desenvolvimento econômico que agride o meio ambiente, provoca o aquecimento da Terra e cria outros problemas globais, além de deixar em nosso próprio país o terreno devastado e imprestável para o futuro?

Evidentemente fazemos uma pergunta retórica. O destino reservado aos brasileiros por um modelo como este pode ser previsto pelos problemas que já vivemos atualmente. E não podemos esperar a conta do futuro para só então denunciar que um progresso à custa do meio ambiente não vale sequer o seu lucro imediato.

terça-feira, 17 de março de 2009

Fraternidade e democracia na vida e na política

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) vem promovendo desde dezembro de 1963 a sua Campanha da Fraternidade, que já tratou dos mais diversos temas da realidade brasileira focando em cada ano uma questão como objeto de estudo, debate e reflexão entre os católicos.

A Campanha já teve como tema inclusive a água, assunto tratado em 2004, quando se discutiu o risco da escassez e a necessidade da preservação dos nossos recursos hídricos.

A seriedade de cada Campanha acaba sendo bastante esclarecedora, estimulando a participação da população em geral no debate dos problemas brasileiros e contribuindo sobremaneira para a conscientização de todos. Ao destacar um determinado tema em atividades que envolvem os católicos de todo o Brasil, o assunto também acaba se tornando pauta jornalística, merecendo a atenção de jornais, revistas, rádio, televisão e agora também os blogs e sites da internet.

Como a CNBB frisa em seu site na internet, suas Campanhas tem como objetivo permanente despertar o espírito comunitário na busca do bem comum, estimulando a consciência de todos em vista de uma sociedade justa e solidária.

O tema da Campanha deste ano foi “Fraternidade e Segurança Pública”, assunto dos mais pertinentes em um país como o nosso que sofre muito com os problemas da injustiça e da insegurança.

A violência avança por todo o país. Agora o problema existe até nas pequenas cidades, com as pessoas sendo obrigadas a cercar de grades suas residências como antes só acontecia nas grandes cidades.

O problema é de tal ordem que uma cidade como o Rio de Janeiro, historicamente conhecida pela cordialidade de seu povo, tem no momento grande parte de sua população sob o domínio de milícias armadas, formadas por bandidos, ex-policiais e até policiais da ativa. Cerca de 20% de suas comunidades estão dominadas por bandos armados, com poder sobre a vida pessoal dos moradores e usando o terror até para impor taxas sobre serviços essenciais como a venda de gás de cozinha.

A ausência oraticamente total do Estado acabou criando um poder paralelo que reina acima das leis e da Constituição. A situação é tão grave que estes grupos já começaram a influir diretamente nas eleições, como ocorreu no ano passado na Rocinha, uma das maiores favelas do rio, onde o tráfico e milícias armadas usaram o terror para forçar a comunidade a votar em candidatos ligados ao crime e impedir o acesso de outros candidatos à favela.

A relação do crime com a política também já se exerce em vários cantos do país em ameaças de morte a religiosos, lideranças políticas, promotores públicos, sindicalistas e parlamentares progressistas.

Esta é uma das faces mais perigosas da violência. Quando aliados ao crime os poderosos começam a instalar o medo para evitar que o debate democrático e a justiça sejam os condutores da vida nas comunidades, tal situação é prenúncio de grave desestabilização social, que pode chegar ao caos com a total falência do Estado.

Esta é uma situação vivida atualmente pelo México, país em que a violência veio em um crescendo cada vez mais rápido até chegar ao ponto das organizações criminosas terem um poder maior em certos estados que o próprio governo federal.

Caso a violência não seja contida com urgência no Brasil, não seria alarmismo prever que a condição atual do México pode ser um panorama brasileiro bem provável em um amanhã bem próximo.

E para que o nosso país não experimente um futuro tão dramático é essencial agir com intensidade agora, fazendo da fraternidade um elemento destacado nas relações sociais e separando com vigor os homens e mulheres de bem daqueles que querem fazer do medo uma arma política.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Por que não fazer a coisa certa?

O projeto de lei que municipaliza o serviço de água e esgoto de Cornélio Procópio, enviado pelo prefeito à Câmara de Vereadores no início deste mês, estimulou na cidade um debate extremamente importante nestes tempos de muita preocupação com os problemas do meio ambiente no âmbito mundial.

Datado de 9 de fevereiro, o projeto tinha previsão para ser votado até o dia 19 do mesmo mês, mas o prefeito pediu sua retirada de pauta na mesma semana. É provável que a decisão tenha sido tomada em razão da evidente reprovação da população tanto ao conteúdo do projeto quanto ao modo de encaminhamento.

Não foi feita divulgação e tampouco qualquer consulta aos cidadãos procopenses sobre um assunto de tamanha importância. O processo foi executado todo às escondidas, como se houvesse a intenção de evitar qualquer divulgação pela imprensa e a participação da sociedade civil.

Entretanto, tomando conhecimento do que se passava o Movimento Água da Nossa Gente divulgou o projeto, o que fez até a diretoria da Sanepar se deslocar de Curitiba a Cornélio Procópio para esclarecer o assunto com a Prefeitura.

Com a retirada de pauta, aparentemente o episódio ocorrido no início do mês havia sido encerrado. Porém, nesta última quarta-feira o projeto voltou para a pauta. E estranhamente, no mesmo dia em que iria ser lido em sessão ordinária, novamente o Executivo voltou atrás e pediu à Câmara Municipal a retirada.

A apresentação do projeto foi uma surpresa para todos, assim como sua retirada, que aconteceu em um período de menos de duas horas, entre o início dos trabalhos da Câmara e o anúncio de que sua leitura não seria mais feita naquele dia.

Desse modo, uma medida tão simples como a renovação com a Sanepar, transforma-se em um processo cercado de acontecimentos que deixam os procopenses muito preocupados.

Mas todos estes fatos serviram como um alerta à cidadania. A tramitação sem transparência do projeto de lei chamou a atenção da população para a importância da Câmara Municipal na manutenção da nossa água como um bem comum. E fez a cidade prestar mais atenção aos trabalhos dos vereadores. No início do mês o Movimento já havia decidido acompanhar de perto as sessões ordinárias que acontecem todas as terças-feiras. Já estamos marcando presença no Legislativo.

E agora a Rádio Cornélio, emissora de grande audiência na região, também resolveu prestar um grande serviço à cidadania e passa a transmitir a partir do início de março as sessões ordinárias da Câmara Municipal. A medida contou com o apoio dos vereadores.

Outra boa conseqüência da apresentação do projeto de lei foi a manifestação maciça da opinião pública contra a proposta de municipalização. Ficou claro que os procopenses são favoráveis à manutenção da Sanepar à frente do serviço de água e esgoto. O posicionamento da opinião pública é também contrário à municipalização, suspeitando inclusive que em projetos como este esteja embutido na verdade a privatização. Hoje na cidade a municipalização é chamada de “Cavalo de Tróia”.

É unânime a satisfação da população com a Sanepar. Hoje, Cornélio Procópio conta com um serviço de qualidade comparável ao de cidades avançadas da Europa, em situação bastante privilegiada em um país como o Brasil, onde menos de 50% dos municípios contam com saneamento básico.

Sabendo disso, a população não vê razão para a municipalização, algo que contraria até o bom senso administrativo, pois todo mundo sabe que quando um serviço está indo bem não há razão para mudar. Aí seria trocar o certo pelo duvidoso.

O que se pergunta nas ruas é por que mexer em time que está ganhando, quando o razoável seria concentrar os esforços da Prefeitura atacando o que realmente existe de problemático no município.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Prefeitura retira projeto de municipalização da água

A pedido do prefeito Amin José Hannouche a Câmara Municipal de Cornélio Procópio retirou de pauta ontem o projeto de lei do Executivo que municipaliza o serviço de água e esgoto da cidade, atualmente gerenciado pela Sanepar. O contrato entre a estatal paraense e a prefeitura terminou há cerca de quatro anos e, desde então, a prefeitura e a empresa negociam a renovação.

O projeto da prefeitura era datado do dia 9 de fevereiro e tinha a previsão de ser votado até quinta-feira desta semana, mas veio a público apenas na última quarta-feira, pois vinha sendo conduzido de forma pouco transparente. O Movimento Água da Nossa Gente teve conhecimento do projeto e de imediato fez a divulgação do seu conteúdo. Mesmo a diretoria da Sanepar até então não sabia da existência do projeto.

O assunto criou indignação entre os procopenses, tanto pelo objetivo da municipalização quanto pela forma com que o projeto estava sendo encaminhado. A população teme que no bojo da municipalização esteja a privatização do serviço de água e esgoto da cidade. Em Cornélio Procópio a idéia da municipalização já recebe o apelido de “Cavalo de Tróia”.

Na última sexta-feira a diretoria da Sanepar se deslocou de Curitiba até Cornélio Procópio para o esclarecimento da situação. Em reunião com o prefeito, o presidente da empresa pública, Stênio Jacob, informou que nos últimos anos a empresa opera com prejuízo na cidade.

Na exposição de motivos do projeto de lei da municipalização, a prefeitura fala em “riquezas auferidas mensalmente no Município” por parte da Sanepar. Na verdade, um serviço público de água e esgoto não busca como fim lucratividade alguma, tendo como objetivo final a excelência do serviço. Desse modo, toda a arrecadação é sempre investida diretamente na manutenção e aprimoramento do serviço.

Na reunião entre a diretoria da Sanepar e o prefeito, jornalistas afirmaram que no contato com a população eles tem percebido que o procopense é contrário à qualquer medida da prefeitura em relação à água que não seja a renovação da concessão. Um jornalista disse ao presidente da empresa, Stênio Jacob, que foi feita uma pesquisa que comprova que oito entre dez procopenses querem a Sanepar na cidade.

Outro fato que torna uma municipalização inoportuna é a grave crise econômica global que já afeta os municípios brasileiros. Os prefeitos estão buscando racionalizar seus gastos. A própria prefeitura de Cornélio Procópio informou recentemente que a cidade tem tantos e tão graves problemas em sua malha viária que, para fazer uma recuperação básica do asfalto na cidade, necessitaria hoje de R$ 30 milhões, uma quantia extraordinária já que o orçamento anual do município é de pouco mais de R$ 40 milhões.

Este e outros problemas do município mostram que o melhor seria, então, não mexer em time que está ganhando. Este é um momento de manter intocados serviços que não dão preocupação e nem gasto financeiro para as prefeituras, o que é o caso do trabalho da Sanepar não só em Cornélio Procópio, mas em mais de 600 localidades paranaenses.

A Sanepar está em Cornélio Procópio desde 1963, quando a empresa foi criada. Na época, o atendimento da população era baixíssimo em todo o estado. Apenas 8,3% da população recebia água tratada e 4,1% tinha rede de esgoto. Hoje o procopense conta com 95% de esgoto coletado e 100% de esgoto tratado. O abastecimento de água é total.

A retirada de pauta do projeto de lei que municipaliza a água é uma medida de bom senso e do agrado da população, porém ainda não é uma decisão que traz a tranquilidade. Isso virá apenas com a assinatura da concessão dos serviços com a Sanepar.

Em razão do surgimento inesperado desta proposta, uma das decisões do Movimento Água da Nossa Gente é a de manter representantes em todas as sessões da Câmara Municipal, que acontecem uma vez por semana no período da noite.

Tomamos esta posição para representar simbolicamente a transparência e independência do Poder Legislativo como uma das ferramentas essenciais da cidadania e da eficiência na administração pública. É também uma forma prática de exercer a participação da sociedade civil na condução dos interesses da nossa cidade.

Amanhã, dia 17 de fevereiro, daremos início a esta ação cívica junto ao legislativo levando o maior número de pessoas para participar da sessão da Câmara Municipal de Cornélio Procópio.


Para conferir na íntegra o projeto
da municipalização da água, clique aqui.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Prefeitura propõe municipalização da água em Cornélio Procópio, Paraná

O Movimento Água da Nossa Gente teve acesso a um projeto de lei de autoria do prefeito de Cornélio Procópio, Amin José Hannouche, que municipaliza o serviço de água e esgoto da cidade, atualmente operado pela Sanepar, empresa pública estadual. O projeto, de número 408/09, foi enviado à Câmara de Vereadores no início desta semana e sua votação está prevista para os próximos dias 17, 18 e 19 deste mês.

O prefeito pretende criar o Fundo Municipal de Saneamento Básico de Cornélio Procópio, o Funsae, que passaria ser o responsável pela administração do serviço e também “com a finalidade de arrecadar e aplicar as tarifas” na cidade. Com a aprovação, todo o sistema de saneamento seria incorporado de imediato pela prefeitura, com o orçamento do Fundo passando a integrar o orçamento do município.

Isso, na prática, municipalizaria o serviço de água e esgoto de Cornélio Procópio. O projeto foi comunicado apenas aos vereadores, sem nenhuma divulgação pública ou consulta a qualquer outra instituição procopense. Tampouco houve alguma discussão anterior com a população sobre o assunto.

Em Curitiba, a notícia também pegou de surpresa a diretoria da Sanepar. A existência do projeto foi revelada aos diretores da estatal pelo Movimento Água da Nossa Gente. Segundo informações obtidas por nós, a diretoria da empresa tinha como certo que o prefeito assinaria a renovação já neste início de ano.

Um projeto como este mexe em questões essenciais para a vida de todos, com um alcance não só na realidade atual, mas também no futuro de Cornélio Procópio. Qualquer decisão sobre este bem comum que é a nossa água só pode ser tomada mediante um debate democrático que envolva toda população.

A surpresa de todos é causada não só pelo surgimento inesperado do assunto, mas também pela falta de transparência política da proposta. Não é concebível que se recorra a procedimentos tão antidemocráticos em uma matéria com tal peso na vida de toda a população. O que choca neste caso não é apenas o objetivo em si, do qual divergimos, mas também a forma de ação, contrária aos valores da cidadania.

A falta de transparência pública do projeto de lei está até mesmo na forma que se pretende impor ao seu encaminhamento na Câmara de Vereadores.

Não foi feita nenhuma divulgação. A imprensa não foi avisada, as instituições da sociedade civil também não receberam informação alguma.

De um modo que só pode causar suspeitas, tudo transcorreu como se houvesse a intenção de esconder da população a existência do projeto até a definitiva aprovação.

O projeto de lei é datado do dia 9 de fevereiro e, no dia 10 do mesmo mês, o presidente da Câmara convocou a votação para os dias 17, 18 e 19, também de fevereiro. Para agravar ainda mais o desrespeito com a cidadania, a votação será feita “extraordinariamente” e pela manhã, às nove horas, totalmente fora da normalidade dos trabalhos legislativos.

Ou seja, a análise e votação de um projeto desta magnitude sofre a restrição do limite de oito dias — com um final de semana no meio, o que diminui o tempo para seis dias. E com o agravante de não ter sido feita nenhuma divulgação para a população. Se não fosse a pronta ação do Movimento Água da Nossa Gente o projeto só viria a público depois de aprovado.

Um projeto como esse rompe com um serviço de qualidade e de respeito ao interesse público, o que a Sanepar vem fazendo há mais de trinta anos. Ao mesmo tempo, a decisão colocará o serviço de água e esgoto numa situação no mínimo duvidosa, abrindo até a possibilidade da privatização deste nosso bem comum.

Neste domingo Cornélio Procópio completa 71 anos. Um fato como este, além de ser um péssimo presente para Cornélio Procópio, traz muita preocupação quanto ao nosso futuro.

Para conferir na íntegra o projeto
da municipalização da água, clique aqui.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Reduzir vem antes de reciclar

Ao tratar aqui no post anterior do atraso dos nossos municípios na questão da coleta seletiva, falamos do conceito 3Rs — ou 3 erres ou, ainda, 3R’s, os três modos de sua identificação. Trata-se de Reduzir, Reutilizar e Reciclar os materiais sólidos, para o enfrentamento deste grave problema atual. E a razão muito simples: não há mais espaço nas cidades para depositar adequadamente tanto lixo.

Falamos da demora das prefeituras em dar a atenção devida à questão do lixo e a falta quase total de coleta seletiva em nossas cidades. Porém, temos que ter claro que a necessidade da ativação da coleta seletiva em todo o Brasil nada mais é que o sintoma da gravidade do problema do lixo.

A disposição dos 3Rs — Reduzir, Reutilizar e Reciclar — não atende somente à sonoridade da frase. Reduzir está em primeiro lugar, destacando que esta é a atitude de resultados positivos mais consistentes, com melhores conseqüências de longo prazo para o meio ambiente.

Reciclar é uma necessidade, mas, por si só, pode até servir na manutenção de péssimos hábitos de consumo cuja tendência, mais cedo ou mais tarde, implicará colapso que deve atingir algum recurso natural. O fato de este item estar hoje à frente dos outros dois na discussão pública do problema do lixo, atende a conveniências variadas, que juntam certas correntes de ecologistas, educadores e até setores com responsabilidade direta na produção desse tipo de lixo.

Atualmente a questão da reciclagem tem uma alta aceitabilidade política social. Até prefeituras sem nenhuma responsabilidade ambiental fazem no final do ano suas árvores de Natal de garrafas Pet ou outro lixo reciclável.

É um debate muito mais fácil de ser enfrentado do que a redução do lixo na fonte, ou seja, na produção industrial e nos hábitos de consumo com impactos ambientais. É muito mais fácil — para citar um objeto simbólico — ficar na conversa de que a latinha de alumínio deve ir para o lixo reciclável que discutir a redução ou abolição desse tipo de embalagem supostamente prática. Para esse tipo de discussão, inclusive, o ecologista jamais contará como o apoio de nenhuma grande indústria.

E quem aceitaria voltar à velha prática de comprar a cerveja ou o refrigerante levando o vasilhame usado para ser reutilizado? É apenas um exemplo, mas podemos pensar em muitos outros modos de vida abandonados por imposição das indústrias e da propaganda.

Centrar a discussão do lixo no ato de Reciclar pode também atender a interesses que não são propriamente ecológicos. A organização Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), responsável pela pesquisa sobre a coleta seletiva no Brasil que discutimos na semana passada traz entre suas empresas associadas a Ambev, Coca-Cola, Tetra Park e a Alcan.

Essas e outras empresas que compõem a Cempre tem interesse direto em manter o assunto no âmbito da reciclagem. As embalagens tetra park, usadas em variados produtos, causam graves problemas ambientais. Só no Paraná, são 500 milhões de embalagens todo ano. Segundo informações repassadas pela própria empresa ao governo paranaense, 35% deste total são recicladas. Ou seja, 340 milhões vão para aterros sanitários, lixões ou direto no meio ambiente.

As latinhas de alumínio são outro problema. Uma das vantagens da latinha, segundo a Alcan diz em seu site na internet, é que ela não enferruja. De fato, o alumínio não se desfaz na natureza, mas levando em conta que sobe de ano pra ano o consumo de bebidas em lata (com 12,2 bilhões de unidades em 2007), é discutível ver nisso uma vantagem.

Além do mais, é preciso levar em conta também os outros custos inerentes ao processo de fabricação das latinhas, como os problemas ecológicos gerados pela atividade mineradora e o alto consumo de eletricidade. As empresas de alumínio utilizam hoje em dia 8% de toda a energia produzida no país, exigindo sempre mais, com a construção de usinas hidrelétricas, com terras e matas perdidas, além da destruição da vida aquática e da água potável.
Para o problema dos resíduos sólidos as dificuldades podem ser bem maiores que encontrar o lixo adequado. E a reciclagem, isoladamente, pode até servir apenas para escamotear o verdadeiro debate.

É óbvio que com isso, não queremos dizer que o ato de Reciclar deve ser colocado à parte. É uma medida altamente necessária. Mas entre os erres, é melhor prestar bastante atenção ao primeiro. E começar a adquirir a consciência de que no longo prazo, para uma economia sustentável ecologicamente, não há espaço para tanta latinha. Reciclada ou não.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Lixo reciclável, uma solução ainda em atraso

A questão do lixo é uma preocupação mundial, já que atualmente este dos problemas ambientais em escala global que colocam em risco a via no planeta.

O crescimento demográfico aliado ao alto consumo, principalmente em países mais ricos, levou ao extremo da produção de lixo estar afetando até os oceanos. Nas cidades, o problema não é menor.

Há falta de locais apropriados para tanto detrito, com especial gravidade no caso do chamado lixo não degradável proveniente de uma infinidade de produtos presentes no cotidiano, muitos com uma sobrevida de dezenas e até centenas de anos e a maioria sendo usada apenas uma vez. Para esses, um atenuante do problema é a reciclagem, mas isso exige a ampliação da coleta seletiva de lixo, um serviço bem recente no Brasil e com resultados ainda insatisfatórios.

O aumento do volume da coleta seletiva no Brasil aumentou um pouco mais de 4% nos últimos anos. E ressalte-se que é um crescimento em cima de números já bastante ruins, levando em conta que a situação do setor está bem longe do ideal em termos de eficiência para atacar um problema tão grave. Hoje, apenas 14% da população brasileira é atendida. São apenas 7% dos municípios brasileiros, sendo que, dentro dessa porcentagem de cidades, 83% ficam no Sul e no Sudeste do país.

Os números foram coletados pela organização Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), entidade empresarial que é a principal fonte do IBGE para levantamentos sobre coleta seletiva.

Não existem números recentes sobre a coleta de lixo comum. A última pesquisa nacional sobre o assunto foi feita no ano 2000. Para o final deste ano o IBGE promete uma atualização dos números, com a divulgação da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB 2008). O recolhimento de dados termina agora em fevereiro e a divulgação está prevista para dezembro. A pesquisa deve traçar um perfil dos serviços de saneamento em todos os municípios brasileiros, abrangendo informações sobre os sistemas de abastecimento de água, esgotamento sanitário, manejo de resíduos sólidos e drenagem de águas pluviais, além de dados sobre a gestão dos serviços.

Entretanto, os números revelados pela pesquisa da Cempre já antecipam que a pesquisa do IBGE na parte do lixo não deve trazer boas notícias, já que a boa coleta seletiva é exatamente um dos elementos mais importantes na solução deste grave problema das cidades brasileiras.

A verdade é que os dirigentes públicos dão pouca atenção para o assunto do lixo, um tema de pouca repercussão eleitoral. Na maioria das cidades, aliás, a coleta seletiva é mantida no âmbito da assistência social, como um meio de ocupar a população mais pobre, quando para funcionar de fato deveria funcionar como uma produtiva indústria, com profissionais bem qualificados e ganhando com dignidade.

E para que haja um bom resultado ambiental, esta coleta não pode também ter como base econômica o preço do quilo da latinha de alumínio ou do papelão, como infelizmente acontece. O ganho em qualidade de vida, inclusive no longo prazo, compensa os subsídios. Este tipo de serviço, além de contemplar dois dos quesitos da filosofia ecológica dos três “Rs” (Reduzir, reciclar, reutilizar), contribui para minorar o grave problema urbano da falta de espaço para depositar o lixo. A coleta seletiva também é muito importante para evitar o entupimento de galerias pluviais, prevenindo enchentes e diminuindo a poluição de rios e do mar.

Mas o fato é que os municípios brasileiros ainda não atentaram para a importância da seleta coletiva. Para se ter uma idéia da dificuldade, Londrina aparece na pesquisa da Cempre como um dos municípios que mais faz coleta seletiva. E esta cidade parananense está vivendo uma crise no setor. Lá, onde a coleta é tocada por organizações não governamentais, os coletores estão a ponto de abandonar a atividade devido ao péssimo ganho.

Os profissionais recebem hoje o que arrecadam com a venda do que produzem, uma situação sempre instável e que piorou muito nos últimos meses com a queda dos preços dos materiais recicláveis. E a reivindicação que fazem é que a prefeitura de Londrina colabore com o serviço para que cada reciclador tenha a garantia de ganhar um salário mínimo mensal.